Uma Questão Poética

No post anterior surgiu uma discussão sobre a dificuldade em compreender/interpretar a poesia e como esta falta de entendimento acaba gerando comentários genéricos; Algo que, de fato, acabo experimentando aqui neste espaço - e garanto que outros tantos blogs do meio também enfrentam. Em resposta a esta busca pela compreensão aos versos, vários dos blogueiros e dos comentaristas delimitaram semelhantemente: Poemas são para serem sentidos, seus significados podem ser muitos. Surgiu então um embate:


Com relação a poesia, o que vale é absorver o real sentido dos versos ou liberar para a imaginação de cada um?
Confesso que acho um pouco complicado assumir a responsabilidade de afirmar qual a maneira correta das poesias serem interpretadas. Portanto, já aviso que o meu intuito com esta postagem é apenas expor a minha visão desta área da literatura e, de certa forma, ajudar quem fica alheio aos encantos das estrofes por racionalizar demais. Com isto dito, vamos a minha análise pessoal:


Num âmbito geral, o primeiro contato que temos com a poesia é durante as aulas de português, onde a professora impunha versos previamente escolhidos e praticamente "mastigava" as palavras e os significados, mostrando exatamente o período em que o Poeta viveu, um pouco sobre a sua vida e o que aquela poesia representava dentro deste contexto. O que é muito bom dentro da didática e, principalmente, para a preparação pré-vestibular. Contudo, a poesia tornava-se maçante para a maioria dos estudantes, que se viam obrigados e limitados a compreender a estrutura, a métrica, aos movimentos literários e, apenas no final, uma interpretação positiva das estrofes.

Foi isto o que eu vivenciei até encontrar a educadora Elídia Bastos. Minha professora de literatura no terceirão causou grande impacto quando entrou na sala e, assim sem mais nem menos, declamou um poema. Ela mudava a entonação, fazia gestos, sentia as palavras. Para quem não estava acostumada com aquela balbúrdia bem intencionada soou um tanto estranho, mas quando ela acabou nós havíamos compreendido a poesia. Sem conhecer o autor, sem se preocupar com o período, sem conexão com a gramática, compreendemos. A partir daí não mais se lia, mas sim, vivia-se a poética.

Claro que o exemplo que acima levantei foi procedido da análise formal, afinal, não era um simples deleite do escrito que se propunha; Também não acredito, tratando-se de um grande nome da literatura, que o simples vivenciar dos versos supra o conhecimento empírico... São muitas nuances, muitas particularidades, que com certeza passariam despercebidas e não seríamos capazes de ver o tamanho da genialidade na junção daquela exata escolha de vocábulos. Mas isto é conversa para um outro dia - hehehe.


Tudo o que se é escrito, foi feito com algum propósito. Na faculdade escolhemos o tema da monografia, do TCC ou whatever com cautela - criamos um problema e objetivamos uma solução. Com a eleição partimos para análise das situações, os estudos, a busca pela resposta. Da mesma forma são os textos líricos; Só que ao invés de criar toda uma cadeia de informações para solucionar uma pergunta, persegue-se a expressão: Pura, simples, primária, sentimental.

Nesta ânsia por expor-se, por libertar o que está nos recantos obscuros da alma, do pensar, o poeta vai além do comum e faz uso de jogos para não apenas falar, mas dar essência as tonalidades precisas daquele fragamento seu. Porque a poesia é sim um fragmento do próprio autor.

Para melhor elucidar isto, eu comparo o mencionado jogo com aquela famosa brincadeira de associação que o nosso cérebro tão bem é capaz de fazer "tal palavra me lembra tal que me faz pensar em tal". Ou seja, quando em meus versos vou falar sobre um determinado assunto, não quero que seja uma sentença, quero um contexto. Como no caso da poesia da Penny Lane; eu usei a personagem do filme Quase Famosos para explicar o papel da música em mim. Eu poderia ter dito simplesmente: A música é muito importante para mim. Entretanto, isto não seria suficente, não explica o que ela me causa. Daí citei o Rock, o Blues, o Soul ... Estes ritmos possuem sensações em si enraizadas - rebeldia, tristeza e profundidade, respectivamente.

Assim, não basta passar os olhos sobre o texto e saber que isto soa bonito; Nem serve apenas sentir e adorar algumas das impressões que passam a conjunção de fonemas. Há que se entender a temática principal do lavrado, conjuntamente com a astúcia dos sentidos, para poder enfim compreender o porquê do poeta e a alma ali estampada. É preciso VIVER A POESIA.

Viver a poesia. Parece um tanto complicada esta ideia, até porque o conceito de viver já uma confusão danada. Pense comigo: Se os versos são retratos dos sentimentos, e o sentir é parte desta experiência pessoal e mística que é o cotidiano, qual outra forma de provar desta fotografia em letras senão a vivendo?

O sentimento não é vida, é VIVO - nem que isto seja apenas dentro de cada pessoa. Ele tem as suas vontades e desejos, ele consegue aclamar-se e agitar-se conforme as experiências, ele se alimenta do que presenciamos, ele modifica-se com o tempo, cresce/amadurece, até mesmo esmorece. Na poesia tudo isto é registrado, notando o poeta ou não.

Por isto eu repito: Não só pense, não só sinta, viva a poesia. Entre na viagem que o autor propôs: Aquele ritmo desenhado pela pontuação é a partitura, o embalo escolhido para a trajetória; O destino é o tema, então não tenha pressa em chegar, curta os detalhes saborosos da estrada; O clima varia conforme as sentimentalidades expressadas, não tema ver a raiva ou o amor de perto... Siga engajado em viajar. Quem sabe, ao final, a surpresa não seja delciosamente familiar?!

Está aí a minha humilde opinião. Não se atenha apenas a ela, não. O que funciona para mim, pode ser uma verdadeira porcaria para você. Somos tão complexos que seria até burrice minha exigir que existisse apenas uma fórmula certa. Peço o seguinto, no entanto: A próxima vez que encontrar uma poesia em seu caminho, dê mais atenção, mais uma chance a ela... Muitas vezes o caminho trilhado é mais interessante que o próprio destino.
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Em tempo, quero agradecer a todos que participaram da discussão anterior:
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Obrigada pela participação e pela Inspiração!
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 Thanks!!!

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This entry was posted on 29 de mai de 2010 and is filed under , , , . You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 . You can leave a response .

30 Responses to “ Uma Questão Poética ”

  1. Belíssimo texto. Concordo plenamente com o que foi escrito, as pessoas tiveram, muitas vezes, experiencias não muito boas e mais decorebas com relação à literatura durante o período escolar. Eu também tive a sorte de ter professores maravilhosos e isso me influiu muito no meu gosto por poemas. Realmente, poemas são expressões dos sentimentos, de partes do autor; por isso devem ser sentidos.

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  2. Legal o texto,
    aindo to lendo,
    adorei o blog, parabéns

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  3. Adorei o blog
    Parabéns! Você escreve com excelência!

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  4. eu já disse, e repito: Karla hack manda muito bem! Blog nota 10 ^^

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  5. Texto muito bem elaborado e explica o que você propôs..
    A verdade é essa mesmo, nós blogueiros sempre agradecemos um comentário é claro. No caso das poesias e poemas eu não gosto muito, mais acho ipocrisia de alguns leitores, não ler o texto e simplesmente falar "ADOREI, LINDO TEXTO", são comentários curtos assim que a gente vê muito por ai..é uma pena poderia ser uma dinâmica mais legal no sistema de comentários.Bjos

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  6. Se eu escrever SENSACIONAL provavelmente estarei "chovendo no molhado". Achei fantástico tudo que escreveu.

    Como postei anteriormente, sempre tive dificuldades de compreender e interpretar poesias. Talvez por não ter tido uma professora como a sua no terceirão - rs (brincadeira), ou então pelo simples fato de não me interessar por esse tipo de expressão. Acho interessante a forma como os poetas se expressam, muitas vezes utilizando analogias que as vezes soam como imcompreensíveis ao olhos de quem lê.
    Continuo com a opinião de que é preciso ler, compreender, sentir e agora VIVER a poesia, de acordo com o que o poeta quis transmitir. Isso só vai acontecer se o leitor se libertar de todos os seus preconceitos com essa arte.
    Acho que me fiz entender né - rs...

    Parabéns pelo post.

    Abraços.

    Fabiano

    http://blog-do-faibis.blogspot.com/

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  7. A poesia lida precisa ser sentida,vivida, concordo com você, precisa ser lida devagar conforme os sentidos forem captando, é preciso ler com vontade, pois se a pessoa não gosta e lê não vai entender nada, vai ver um amontoado de palavras e nenhum sentido, se vou ler alguma poesia algumas vezes não sei descrevê-la em palavras, porém entendo em meus sentimentos, vivo a poesia, me vejo ali.

    Ler sem entender é grande perca de tempo, interpretar sentimentos não se necessita de ampliada inteligência e sim de simples sentir, viver a alma da poesia, deliciar esta trilha como você cita que o caminho trilhado é muitas vezes melhor que o destino.

    Ler uma poesia é imaginar, é viver ela! =D

    Ótimo post, e de um assunto interessante e que me interessa bastante =)

    Boa Tarde.
    Bjos.

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  8. Só sentir basta ? a interpretação é suficiente?
    Acho que os dois estão intrisicamente ligados, para sentir precisa interpretar (não de maneira formal) e para ser interpretada, muito antes, precisa ser sentida.

    http://tomatesuicida.blogspot.com/

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  9. Só sentir basta ? a interpretação é suficiente?
    Acho que os dois estão intrinsicamente ligados, para sentir precisa interpretar (não de maneira formal) e para ser interpretada, muito antes, precisa ser sentida.

    http://tomatesuicida.blogspot.com/

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  10. eu acho que as poesias sao interpretadas de uma forma diferente por cada pessoa. as palavras do poeta sao sentidas de acordo com o que estamos passando. a essencia eh difere de pessoa p pessoa.
    gostei do blog

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  11. Parabens , vc escreve muito bem.
    Gostei da sua analise pessoal, não se mostrou insegura em nenhum momento!!!

    otimo blog..


    http://ximbolistas.blogspot.com/

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  12. Muito beem feitoo essa sua análise. Acho que a poesia devemos levar pro imaginário de cada um...

    mas gostei mesmo, li mais o começo e confesso que admirei a forma como voce expressa sem hesitar.. =)

    http://redesenhei.blogspot.com/

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  13. Olha, foi um desabafo e tanto.. e tu a opinião é bem embasada, coisas interessantes e bem escrita, parabéns.

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  14. Olá Nascida em versos ;)
    .
    Não sei se vc lembra de mim. Sou o Leonardo Dognani, do Blog Floresta de Concreto. =)
    vc tinha me dado um selo acho q em 2008, e seu blog era "outro" rsrsrs
    Achei seu link lá, lhando minhas coisas =)
    eu tinha sumido ha muito, e aos poucos venho retornando ao blog e colocando mais obras^^
    E to aqui, retomando o contato =)
    .
    Sobre a postagem:
    Bem, como poeta, posso dizer que as interpretações causam de fascínio até mesmo revolta. Como poeta, gosto que lêiam o que escrevi entendendo de fato, ou se não conseguir entender, que sinta. O segredo, ta em escrever para causar sentimentos com situações que não se precise pensar muito.
    Por isso, achei interessante seu ponto de vista para dizer 'viva a poesia', viver aquele universo escrit pelo autor. se coloque na pele do eu lírico sim! ou observe-o como num filme em q vc se envolve e se perde, e se assusta e chora, ou ri junto com ele.
    .
    Já ouvi muito de que a interpretação é 'livre', mas digo que a resposta é não, não é livre.
    Claro q não é proibido vc viajar com algo q nem mesmo o autor pensou, mas o fato, é q não estará entendendo o que está escrito.
    Algumas poesias são feitas com um tipo de sentimento incerto, levando ao leitor incerteza em si, aí sim, nesse caso, ele pode (e deve) viajar e se confundir ;)
    Mas as vezes as analogias ao q se escreve acabam parando em conceitos q o próprio escritor não tem, e sempre acaba naquela frase "o autor quis dizer isso, isso e isso" e na verdade ele não quis dizer nada! só escreveu ali o que sentia ou quis q alguém sentisse rsrsrs
    como escritora não sei se vc já teve interpretação tosca do q vc escreveu rsrsrs
    Mas é aquele coisa: quem 'entende' de poesia, quem possui tal sensibilidade á arte, não precisa de milhões de aulas para significados =) (embora ler seja indispensável para crescer) =)
    .
    Acho que me alonguei demais rsrsrs
    .
    Bem, então é isso^^
    abraços, e de uma olhada lá ;)

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  15. desculpa karla acabei apagando o link do meu blog la na postagem do comente acima, pois eu ia comentar no outro blog, acabou aparecendo o da menina na frente, e bem... o texto dela era muito ruim. acabou não dando tempo de deletar rapido. acabou parecendo que o seu que vai comentar o dela.

    niemi.

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  16. Ah!
    A poesia é muito mais do que palavras com rimas, são sentimentos escritos que é preciso ler com atenção p/ entender o significado. Elas nos dão a oportunidade de transformar dor em palavras que encantam a quem ler.
    Gosto muito da postagem ;D

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  17. Karla eu fico com certo medo e com certa apreensão de citar Mario Quintana e eu considero que ele foi por demais muito corajoso quando falou que

    "quando se pergunta a um poeta o que ele quiz dizer com aquilo, um dos dois é burro"

    mais ou menos assim a citação do meu amado Quintana.

    pois bem eu acho que esse é um dos grandes problemas para a divulgação da poesia, entendimento. Considero o entendimento totalmente Subjetivo, é isso que os Dadaístas quiseram passar naquela maravilhosa vanguarda

    Bem não sou crítico, analista e muito menos um intelectual, mais é essa a minha humilde opinião, e a sua é verdadeiramente a minha.


    Grandes abraços desse poeta menor

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  18. Acredito eu que se o texto for bem escrito, por um bom autor, a mensagem e os sentimentos que este queria passar serão claramente recebidos e interpretados pelo leitor.

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  19. Adorei seu blog...to te seguindo aki já :) voltarei sempre aquii!! beijos e Parabéns!!!

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  20. Parabéns pelo texto.... vc escreve muito bem e que continue sempre assim!!!!!

    Bjos e bom final de semana!!!!

    Vivian

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  21. concordo com o que o "dono do blog" disse: "as palavras do poeta sao sentidas de acordo com o que estamos passando. a essencia eh difere de pessoa p pessoa."

    Um dia eu coloquei no meu status do orkut esse trecho do Fernando Pessoa: "Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada."
    Logo em seguida recebi um scrap de uma amiga dizendo: "Porque nada? VocÊ é TUDO."
    Ela entendeu completamente o oposto que eu. Quem interpretou certo? Eu ou Ela? Eu diria que nós duas sentimos. Cada uma da sua maneira. A imaginação é algo tão amplo, pra que limitar?

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  22. Primeiramente gostaria de parabenizar pelo blog é a minha primeira visita aqui.

    Esse post está realmente bom, adorei sua forma de escrita.

    Um abraço e até a próxima

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  23. Interessantee...
    ------------------------------------------
    Siga o http://casadalaracha.blogspot.com/ no twitter! @casadalaracha

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  24. A maneira correta de interpretar uma poesia...sim...o pior é quando for uma poesia dadaísta...ai não tem geito...

    www.sementedarenovacao.com

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  25. a arte é interpretativa cada um vê do seu jeito.

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  26. interessante
    gostei do post
    xD

    http://vagalnerdkawai.blogspot.com/

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  27. pois é, se tds tivesse uma educação de leitura mais incentivada na escola com certeza o mundo seria outra, mas educação de leitura é uma coisa, empurrar livros goela a baixo é outra

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  28. Concordo em partes:
    Quanto ao escritor, não basta expor um sentimento, isso causaria uma banaçlização tamanha, tal qual a de uma banda de forró. Há de haver alguns parâmetros e critérios de avaliação, senão ficaríamos todos presos ao "gosto não se discute". Por este motiovo, vemos que o que caracteriza uma grande obra é a forma, ou seja, o como se expôs o que se sentia.
    "De todas as coisas humanas, a única que tem o fim em si mesma é a arte" (MAchado de Assis.

    Quanto ao leitor, o problema é que ele, por causa da educação q vemos no ensino médio q nos distancia das obras, acaba não tendo discernimento suficiente para melhor compreensão das nossas obras. Acredito q isso só tenda a piorar, mas discussões como estas são extremamente necessárias para ajudar a "salvar algumas almas".

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  29. Shirukaya

    Também não creio que haja composição poética sem preocupação com a forma. As duas são aliadas ferrenhas.

    O meu argumento não é no sentido de ignorar a forma, pelo contrário, a análise da exposição parte da maneira como foi escrita e seus significados - como disse num dos primeiros parágrafos, expondo quanto a importância de um estudo formal dos versos para o real entendimento da magnitude do lavrado. O que eu afirmei foi no sentido de que na poesia tende-se a falar sobre sentimentos, um retrato do que se está sentindo. Como na prosa ou demais formas de literatura se fala do sentimento, mas não se alude especifica e/ou exclusivamente a ele... No lirismo poético, que é mais livre por natureza, um dos focos é este.

    Na postagem apenas expus que uma das dificuldades das pessoas em compreender a poesia é a de ignorar que ela nasce do âmago do poeta, da visão dele, de sua alma... E por isto merece uma análise mais intimista e curtindo os versos pela visão de quem os escreveu.

    Poesia não é só sentimento, ela é forma, é pensada, é criada a partir das vivências e conhecimentos do escritor... Mas ela é capaz sim de retratar uma sensação, como nas demais artes.

    Este era meu ponto.

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"Nunca houve no mundo duas opiniões iguais, nem dois fios de cabelo ou grãos. A qualidade mais universal é a diversidade." [ Michel de Montaigne ]

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